Um dia,
Ainda neste tempo letal,
Quando o invisível sem pressa caminhar sobre o meu destino,
Por um segundo incerto, encontrar as marcas dos meus risos reais,
Os meus olhos não mais expressarão os desejos de menino e
As cores serão lembranças visuais.
Naquele dia,
Ainda neste século terminal,
Quando o ceifador transformar a minha paisagem em canção de hino,
Por um segundo incerto, encontrar os meus espaços fatais,
Os meus dedos entrelaçados não mais expressarão a grandeza do toque fino e
As minhas mãos ficarão amarradas como nos modelos funerais.
Findando os meus dias humanos,
Ainda mais passageiros e virtuais,
Quando a finitude encontrar o meu irremediável destino orgânico,
Por certo, não mais visitarei os meus compromissos anuais…
A mente lamentará a falta do azul oceânico e
A fatalidade apenas poupará a cédula que, longe do bolso, a deixará.
Algum dia,
Ainda nesta atmosfera central,
Quando a carpideira transformar o seu som raso em choro fino,
Por um segundo incerto, encontrar os meus lenços pessoais,
Aí, a falta de respiração dirá sobre o meu descanso cheio de destino:
O estágio mórbido do meu coração é quem sofrerá de amor.
MARINHO, Robert. UM AMANHÃ SEM MIM.– Publicado por Prodobem.art.
Descobrindo um pouco desta obra literária.
O poema é uma reflexão sobre a morte. O eu lírico não se apega à vida, mas a observa racionalmente como algo que tem um fim certo. Evidência disso é a última linha, em particular, sugerindo que, no final, o coração talvez continue a “sofrer de amor”, dando um toque de profunda emoção. É um lamento pela vida que se vai, mas também uma aceitação poética desse destino comum a todos. O poema aborda diretamente a morte como um evento inevitável e pessoal. Não há um tom de medo ou revolta, mas sim de aceitação e contemplação sobre o que significa o fim da vida. A expressão “Um amanhã sem mim” no título já estabelece a perspectiva de um futuro onde o eu lírico não estará presente.
